Pubalgia

A pubalgia é um termo genérico utilizado para descrever dores localizadas na região do púbis (a parte frontal da bacia) ou na sínfise púbica. Frequentemente chamada de "dor na virilha", essa condição pode ser limitante, afetando desde atletas de alto rendimento até pessoas em atividades do dia a dia.

Renan Rigonato

O que é a Pubalgia?

De forma simples, a pubalgia é uma inflamação no osso do púbis causada, na maioria das vezes, por traumas repetitivos ou sobrecarga mecânica.

Essa sobrecarga afeta as estruturas que estabilizam a bacia (cápsulas e ligamentos), gerando uma instabilidade na sínfise púbica. Os sintomas mais comuns incluem:

  • Localização: Dor na parte baixa do abdômen, na virilha ou no próprio púbis.

  • Irradiação: A dor pode se espalhar para a face interna da coxa, períneo e, em homens, até para os testículos.

  • Características da dor: Inicialmente, a dor aparece durante ou após exercícios físicos, mas em quadros avançados, pode surgir até em repouso.

A Anatomia - Desequilíbrio de forças

Para compreender a pubalgia, precisamos analisar a sínfise púbica como um ponto de convergência de forças opostas:

  • A Sínfise Púbica: É uma articulação anfiartrose (com pouco movimento) que une os dois ossos do púbis. Ela é reforçada por ligamentos potentes e funciona como um amortecedor de cargas na bacia.

  • O “Cabo de Guerra” Muscular:

    • Para baixo: Os músculos Adutores (especialmente o Adutor Longo) puxam o osso para baixo e para fora

    • Para cima: O músculo Reto Abdominal puxa o púbis para cima.

  • Lesão: Quando há um desequilíbrio (geralmente abdominais fracos e adutores encurtados ou muito fortes), cria-se um estresse de “cisalhamento” na sínfise, gerando microlesões, edema ósseo e inflamação dos tendões.

Causas da pubalgia

Sobrecargas esportivas

É uma lesão clássica em esportes que exigem corrida, chutes e mudanças rápidas de direção, como:

  • Futebol (causa número 1 no Brasil devido ao movimento de chute e torção do tronco).

  • Hockey e Rugby.

  • Corridas de longa distância.

Fatores Musculares e Articulares

As causas técnicas mais comuns identificadas em exames de imagem e avaliação clínica são:

  • Lesões nos Tendões: Inflamação (tendinite) ou rupturas parciais dos músculos adutores (internos da coxa) e do reto abdominal.

  • Hérnia do Esporte: Fraqueza da parede abdominal próxima ao púbis.

  • Impacto Fêmoro-Acetabular (IFA): Problemas na articulação do quadril que limitam o movimento e sobrecarregam o púbis compensatoriamente.

Causas não relacionadas ao esporte

  • Gestação e Parto Vaginal: Devido às alterações hormonais e mecânicas que aumentam a frouxidão dos ligamentos da bacia.

  • Trauma Direto: Quedas ou impactos na região pélvica.

  • Diagnóstico Diferencial: É fundamental que o especialista descarte causas ginecológicas ou genitourinárias que possam simular a dor da pubalgia.

Diagnóstico da pubalgia

O diagnóstico da pubalgia não é feito apenas com um exame; ele é como um “quebra-cabeça” montado por um médico especialista em quadril. Como a região da virilha possui muitas estruturas próximas, é fundamental diferenciar a pubalgia de outras condições, como hérnias inguinais, problemas na coluna ou causas ginecológicas e urológicas.

Exame físico – fundamental

  • Palpação local: Identificação de dor diretamente sobre o osso do púbis ou na inserção dos tendões.

  • Squeeze Test: O paciente realiza uma força de adução (fechar as pernas) contra a resistência do médico.

  • Manobra de Grava: Um teste específico que combina movimentos de flexão e força abdominal para verificar a estabilidade da região.

  • Teste Abdominal: Avaliação da força e dor ao realizar movimentos abdominais com os joelhos estendidos.

Exames de imagem – o que avaliar?

Os exames são ferramentas essenciais para confirmar a gravidade da lesão e descartar outras patologias com sintomas semelhantes. Em vez de um único teste, o diagnóstico costuma unir diferentes tecnologias:

  • Radiografia (Raio-X): Avalia a parte óssea em busca de irregularidades ou alargamentos na sínfise.

  • Ressonância Magnética (RNM): É o exame mais completo, pois identifica o edema ósseo (sobrecarga interna do osso) e o Sinal da Fenda, que indica lesões nos ligamentos estabilizadores. Também permite visualizar com precisão inflamações ou rupturas nos tendões do reto abdominal e dos adutores.

  • Ultrassonografia: A é útil para avaliar dinamicamente a parede abdominal em busca de hérnias. Em casos específicos de dúvida sobre a inflamação óssea

Tratamento da pubalgia

O tratamento conservador é a primeira escolha para a maioria dos pacientes com pubalgia, apresentando um alto índice de sucesso e resolução dos sintomas sem a necessidade de intervenção cirúrgica. Devemos sempre compreender a origem da lesão, pois o foco principal é restaurar a harmonia mecânica da bacia, garantindo que o paciente possa retornar às suas atividades sem dor no repouso, durante ou após o esforço.

Pilares do Tratamento Não Operatório

  • Fisioterapia Especializada: O tratamento foca no reequilíbrio das forças entre a musculatura abdominal e os adutores, estabilizando a sínfise púbica.

  • Ajuste de Desbalanços Musculares: É realizado um fortalecimento progressivo do Core e da cintura pélvica, corrigindo fraquezas que geram sobrecarga no osso do púbis.

  • Correção do Gesto Esportivo: Analisar movimentos específicos, como o chute ou mudanças de direção, para ajustar a técnica e eliminar gatilhos de dor.

  • Reabilitação Ativa e Gradual: O retorno aos treinos é feito por etapas, utilizando atividades de baixo impacto (como ciclismo) antes de progredir para corridas e saltos, sempre respeitando a ausência de dor residual.

  • Controle de Carga: O repouso é relativo; o objetivo é manter o paciente ativo enquanto as estruturas cicatrizam e ganham capacidade de suporte.

Tratamento Cirúrgico: Indicações e Procedimentos

 

A cirurgia é altamente personalizada e depende diretamente da origem da dor identificada nos exames. Os principais procedimentos incluem:

  • Tratamento do Impacto Femoroacetabular (IFA): Realização de artroscopia de quadril para corrigir alterações ósseas que limitam o movimento e sobrecarregam o púbis.

  • Reparo de Lesões Tendíneas: Procedimentos como a tenotomia ou o reparo direto dos tendões dos adutores ou do reto abdominal quando há rupturas crônicas.

  • Intervenções na Sínfise Púbica: Em casos de instabilidade severa ou osteíte púbica persistente, podem ser realizadas a curetagem, a ressecção ou, em casos selecionados, a artrodese (fusão) da articulação.

Dúvidas Frequentes

Embora usados como sinônimos, há distinções:

  • Pubalgia: É o termo genérico para a síndrome dolorosa na região.

  • Osteíte Púbica: Refere-se especificamente às alterações inflamatórias e degenerativas no osso do púbis, visíveis no Raio-X como esclerose ou cistos.

  • Pubite: Termo associada ao processo inflamatório da sínfise púbica. Na prática atual, prefere-se o conceito de Groin Pain (dor na virilha), classificando a lesão pela estrutura predominante: adutores, iliopsoas, canal inguinal ou púbis.

O quadril e o púbis funcionam como uma unidade funcional. Quando o paciente possui Impacto Femoroacetabular, há uma limitação mecânica na rotação e flexão do quadril. Para compensar essa falta de movimento, a bacia realiza movimentos rotacionais excessivos, gerando uma sobrecarga diretamente sobre a sínfise púbica. Tratar a pubalgia sem abordar um IFA subjacente é uma das causas mais comuns de falha no tratamento conservador.

  • A literatura e protocolos como deve ser mantido por, no mínimo, 6 a 10 semanas com fisioterapia de alta qualidade. A indicação cirúrgica surge quando:

    • Persiste a dor limitante mesmo após o reequilíbrio biomecânico.

    • Há evidência de lesão estrutural que impede a estabilização (como grandes roturas tendíneas ou instabilidade óssea severa).

    • O atleta não consegue voltar ao nível pré-lesão devido a sintomas residuais em gestos esportivos de alta intensidade.

A dor na virilha pode ter diferentes causas, e o tratamento ideal depende do diagnóstico correto. Por isso, é fundamental passar por avaliação com um médico, para confirmar o diagnóstico e descartar outras condições que podem causar sintomas parecido

Dr Renan José Rigonato

Dr Renan José Rigonato

Dr. Renan José Rigonato é médico ortopedista, especialista em Cirurgia de Quadril, com formação pela PUC-Campinas e fellowship pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP.

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