Descompressão da cabeça do fêmur
A técnica de preservação para a Osteonecrose em estágio inicial. Agir antes do colapso ósseo é a melhor estratégia para evitar a prótese.
O que é a Descompressão da Cabeça do Fêmur?
A descompressão medular (ou core decompression) é um procedimento cirúrgico minimamente invasivo projetado especificamente para tratar a Osteonecrose da Cabeça Femoral em seus estágios iniciais. A osteonecrose ocorre quando o suprimento de sangue para o osso é interrompido, levando à morte celular (necrose) e ao enfraquecimento da estrutura interna do fêmur.
O procedimento consiste em realizar uma perfuração precisa no colo e na cabeça do fêmur para remover um cilindro de osso doente. Isso reduz a pressão intraóssea elevada, restaura o fluxo sanguíneo e cria canais para que novos vasos e células ósseas saudáveis possam migrar para a área afetada.

A Anatomia e a Fisiopatologia da Lesão
Para entender a importância da descompressão, é preciso olhar para a biologia do quadril:
Suprimento Sanguíneo Frágil: A cabeça do fêmur possui uma vascularização terminal e limitada. Pequenas interrupções nesse fluxo podem desencadear a morte do tecido ósseo subcondral (abaixo da cartilagem).
Pressão Intraóssea: Na osteonecrose, o edema (inchaço) dentro do osso rígido aumenta a pressão interna, o que comprime ainda mais os pequenos vasos, criando um ciclo vicioso de isquemia.
O Risco de Colapso: Sem tratamento, o osso necrótico perde sua capacidade de suporte. Sob a carga do corpo, a “casca” externa do fêmur pode sofrer microfraturas, levando ao colapso da cabeça femoral (deformação), o que resulta em artrose acelerada.
Principais Sintomas
A osteonecrose é muitas vezes silenciosa no início, mas os sinais de alerta incluem:
Dor profunda na virilha, que pode irradiar para a coxa ou glúteo.
Desconforto que piora ao carregar peso ou realizar atividades de impacto.
Rigidez progressiva na articulação do quadril.
Sensação de “falta de confiança” no membro afetado.
Características da Dor
- Intermitente e Profunda: No início, a dor aparece e desaparece, sendo descrita como um “peso” ou “moagem” profunda na articulação.
- Dor em Repouso: À medida que a pressão interna aumenta, a dor pode persistir mesmo quando o paciente está sentado ou deitado.
- Mudança Súbita: Se a dor se tornar aguda e incapacitante de um dia para o outro, pode ser um sinal de que ocorreu uma fratura subcondral ou o início do colapso ósseo.
Causas e Fatores de Risco
Embora a causa exata nem sempre seja identificada (casos idiopáticos), os principais gatilhos são:
Uso de Corticosteroides: O uso prolongado de cortisona é um dos principais fatores associados.
Consumo de Álcool: O álcool em excesso altera o metabolismo de gorduras, podendo obstruir microvasos ósseos.
Traumas Prévios: Deslocamentos (luxações) ou fraturas do colo femoral que danificaram os vasos sanguíneos.
Doenças Sistêmicas: Anemia falciforme, lúpus e distúrbios de coagulação sanguínea.
Dúvidas frequentes
A janela de oportunidade para este procedimento é curta. O exame fundamental é a Ressonância Magnética (RM), que é capaz de detectar o edema ósseo e a área de necrose meses antes de qualquer alteração aparecer no Raio-X. Se o Raio-X já mostrar que a cabeça do fêmur "achatou" (colapsou), a descompressão geralmente não é mais indicada.
É um procedimento percutâneo. Sob auxílio de um aparelho de Raio-X em tempo real (poliscópio), o cirurgião insere uma pequena trefina através de uma incisão mínima na lateral da coxa, atingindo o centro da área necrosada com precisão milimétrica.
A recuperação exige o uso de muletas por cerca de 6 a 8 semanas para proteger o osso enquanto ele se regenera. O objetivo é evitar carga total sobre a área perfurada para prevenir fraturas durante o processo de cicatrização biológica.

Dr Renan José Rigonato
Dr. Renan José Rigonato é médico ortopedista, especialista em Cirurgia de Quadril, com formação pela PUC-Campinas e fellowship pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP.
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