Fraturas do Quadril / Fêmur proximal

Uma urgência ortopédica que demanda intervenção ágil e precisa para restaurar a mobilidade e prevenir complicações graves.

Renan Rigonato

O que são as fraturas do quadril?

A região do fêmur proximal compreende a parte do osso da coxa mais próxima à bacia, servindo como transição entre a “cabeça” do fêmur e o eixo longo do osso. Entender o que é uma fratura no fêmur ajuda a classificar a gravidade da lesão. Elas se dividem em três regiões principais: as fraturas do colo do fêmur, as fraturas transtrocantéricas e as fraturas subtrocantéricas.

O tratamento moderno baseia-se, via de regra, na “Cirurgia de Urgência”: o objetivo é estabilizar a fratura ou substituir a articulação o mais rápido possível, permitindo que o paciente volte a sentar e caminhar precocemente, reduzindo drasticamente os riscos de pneumonia, trombose, embolia e perda de massa muscular.

A Anatomia e os Tipos de Fratura

Para compreender a gravidade dessas lesões, o paciente precisa entender a anatomia local. A articulação é envolvida por uma cápsula articular.

Analogia: Imagine a cápsula articular como uma “tenda de acampamento” protetora ao redor da junta. A vascularização (os vasos sanguíneos que levam oxigênio ao osso) funciona como “mangueiras de água” que sobem encostadas no osso.

Se a fratura ocorre dentro da tenda (fraturas intracapsulares, como a do colo do fêmur), os ossos quebrados rompem essas mangueiras, cortando o suprimento de sangue. A principal fonte de sangue no adulto provém dos vasos capsulares (artéria circunflexa medial). Quando o sangue é cortado, o osso pode “morrer”, gerando uma necrose avascular. Já nas fraturas fora da tenda (extracapsulares, como as transtrocantéricas), o risco dessas mangueiras se romperem é muito menor.

  • Fraturas do Colo do Fêmur (Intracapsulares): Ocorrem dentro da cápsula articular. Como essa região possui uma irrigação sanguínea frágil, o risco de o osso não cicatrizar (pseudoartrose) ou sofrer necrose é alto. Por isso, em idosos, a tendência é a substituição por Prótese.

  • Fraturas Troncantéricas (Extracapsulares): Ocorrem na região abaixo do colo do fêmur. É uma área com excelente suprimento sanguíneo, facilitando a cicatrização. Aqui, o tratamento padrão é a Fixação com placas, parafusos ou hastes intramedulares.

  • Fraturas Subtrocantéricas (Extracapsulares): Localizadas logo abaixo dos trocanteres, costumam ser lesões mais complexas que exigem hastes longas para garantir estabilidade.

Com quem acontece?

Nos termos médicos diz-se que essa fratura tem um pico de apresentação bimodal, afetando dois grupos muito distintos.

  1. O primeiro grupo envolve pacientes jovens que sofrem traumas de altíssima energia, como acidentes automobilísticos ou quedas de grandes alturas.
  2. O segundo grupo, que é o mais comum, afeta pacientes idosos que sofrem traumas de baixa energia, como um simples tropeço em casa, geralmente devido a um osso enfraquecido pela osteoporose.

Apresentação clínica (como suspeitar)

Os sintomas de fratura no fêmur são clássicos. O paciente apresenta dor intensa e normalmente impossibilidade de ficar em pé ou deambular (alguns raros casos suportam peso).

Ao exame físico, o médico nota uma deformidade evidente: a perna do paciente fica encurtada e o pé roda apontando para fora (rotação externa).

Tratamentos

  • Fraturas do colo do fêmur: Como há enorme risco de necrose (falta de sangue), o tratamento em pacientes mais idosos costuma ser a substituição da articulação por uma prótese (artroplastia). Em pacientes jovens, o médico tenta preservar o osso fixando-o com parafusos canulados.
  • Fraturas transtrocantéricas: Ocorrem fora da cápsula articular e colam mais facilmente. O médico utiliza sistemas com placas e parafusos deslizantes (como o DHS) ou hastes metálicas por dentro do osso (haste cefalomedular).
  • Fraturas subtrocantéricas: São lesões tipicamente instáveis. O método de tratamento mais indicado e seguro pelo médico é a fixação com hastes (mais longas que as das fraturas transtrocanterianas) inseridas por dentro do canal medular do osso.

Dúvidas frequentes

O diagnóstico clínico é evidente na maioria das vezes, sendo confirmado por Radiografias do quadril e bacia. Em casos de dúvida (fraturas ocultas), a Tomografia Computadorizada ou a Ressonância Magnética são solicitadas para identificar microfraturas que não aparecem no Raio-X inicial.

 

  • Fixação (Hastes e Parafusos): Usada quando o objetivo é preservar o osso original. É a escolha para fraturas trocantéricas em idosos ou fraturas de colo em pacientes jovens.

  • Artroplastia (Prótese): Usada quando a chance de cicatrização do osso é baixa ou o risco de necrose é alto, permitindo que o paciente idoso apoie o peso imediatamente após a cirurgia sem depender da consolidação óssea.

A reabilitação começa no hospital. No primeiro ou segundo dia pós-cirurgia, o paciente já é estimulado a sentar e, se possível, iniciar a marcha com andador.

A fisioterapia contínua é vital nos primeiros 3 a 6 meses para recuperar a força muscular e a confiança no equilíbrio.

 

Geralmente, o paciente idoso que sofre essa fratura já possui outras doenças associadas (comorbidades), menor capacidade de locomoção prévia e ossos mais fracos devido à osteoporose. A grande maioria dessas fraturas ocorre por traumas de baixíssima energia, como uma simples queda da própria altura

A gravidade desse quadro é refletida em estatísticas preocupantes: o paciente apresenta uma taxa de mortalidade hospitalar de cerca de 15%, número que pode chegar de 30% a 50% no primeiro ano após a lesão . Além do risco à vida, todo paciente que passa por esse trauma sofre uma perda drástica e imediata na qualidade de vida e na sua independência. A abordagem preoce (Urgência) ajuda a minimizar os impactos disso.

 

É importante que o paciente e seus familiares compreendam os riscos envolidos nessas lesões. 

Complicações Clínicas: O estresse do trauma somado ao tempo restrito ao leito pode gerar confusão mental (delirium), infecções urinárias, pneumonia, feridas na pele (escaras) e sangramentos no estômago ou intestino; Há também o grande risco de formação de coágulos, gerando trombose venosa e embolia pulmonar

Para evitar isso, o médico prescreve rotineiramente medicamentos para afinar o sangue, uso de métodos de compressão das pernas e estimular assim que possível o retorno a movimentação do paciente.


Complicações Ortopédicas: Como o osso do paciente idoso costuma ser fraco (osteoporótico), os implantes metálicos (placas e parafusos) podem falhar e perder a fixação da fratura;Outras falhas incluem a ausência de cicatrização do osso (pseudoartrose) e a necrose da cabeça do fêmur, que é a "morte" do osso por falta de suprimento de sangue

Nos casos em que o médico opta por substituir o osso por uma prótese metálica (artroplastia), a complicação mais comum nos primeiros meses é a luxação, que é quando a prótese se desencaixa da bacia

O idoso com fêmur fraturado é considerado um paciente de altíssimo risco, e essa vulnerabilidade permanecerá durante todo o primeiro ano após a cirurgia.

A principal forma que a medicina possui para combater esse risco é operar rapidamente, devolvendo ao paciente o maior nível possível de atividade e a autonomia.

A cirurgia precoce permite que o paciente saia da cama, sente-se e inicie a reabilitação física. A evidência médica comprova que permitir que o paciente pise e coloque carga no membro operado precocemente funciona como um estímulo natural para a cicatrização do osso
Além disso, essa mobilização rápida e a volta à verticalidade diminuem significativamente o risco de o paciente desenvolver episódios de confusão mental (delirium) e complicações de trombose venosa profunda.

Dr Renan José Rigonato

Dr Renan José Rigonato

Especialista pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia da USP (IOT- HCFMUSP), com Fellowship em Cirurgia do Quadril pela mesma instituição. Atualmente, é preceptor da residência médica e da graduação na USP. Sua atuação é focada em cirurgia do quadril, bacia e lesões esportivas.

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